Manhã fria de sábado, eu estava no tanque esfregando as
camisas do Santos do meu caçula. As duas camisas que ele mais gosta estavam encardidas
e ela ia escolher a que usaria hoje no jogo. A água fria da torneira acionou
lembranças, da minha mãe lavando as roupas da semana no tanque do quintal aos sábados
a tarde, depois de chegar trabalho, da minha tia Coca que lavava as montanhas
no domingo de sua folga. O cuidado das Marias com as roupas, a força delas na
condução do lar, sim foram Elas, moram em meus sentidos. A imagem das duas nos
tanques de outrora fez surgir lágrimas quentes em minha face, pensando em como
elas rezavam pelos meninos na hora de lavar as camisas do time. Assim como fiz
hoje, meu filho iria ao estádio mais tarde, sem a minha companhia dessa vez.
Mãos geladas, corações quentes.
Eu não fui ao estádio por um motivo, o almoço churrasco
na casa do meu irmão caçula. A despedida do meu irmão mais velho, que veio nos
visitar nesse outono paulista. Cheguei primeiro para fazer a farofa, tradição
já. Só que dessa vez sem alguns ingredientes já que nosso Henrique é vegano. No
bairro de OZ, no quintal, com a churrasqueira de ferro, com companhias
preciosas, minha irmã cuidadosa Lane, minha mãe, meus sobrinhos, a ex-chunhada
e sempre amiga Amanda, mãe do Paulo Henrique, acompanhada de sua prole.
Risadas, correria das crianças, o cheiro do churrasco aromatizando a rua, as
conversas ao redor da mesa ...
De repente meu irmão Henrique chega com a camisa do Palmeiras que foi do Paulo,
nosso irmão mais velho e a entrega para o Paulo Henrique, seu filho. Uma
passagem que entrelaça histórias do passado, presente e futuro. A camisa de
tantos jogos, em casa, nos estádios de São Paulo e de tantas cidades por onde
meu irmão Paulo acompanhou o Verdão, que ficou com o Henrique por anos como
pele nos dias de jogos, agora irá para outro guarda-roupa. Seguirá sua história
sendo casa no corpo do nosso PH. Ela, um tesouro, tem um rasgo no peito, onde
palpita o coração.
O entardecer mágico enfeitava o encontro que marcou mais
uma partida do nosso Manchinha de Osasco. Ele segue para o sertão onde nascemos
para visitar os nossos, de lá seguirá para praia onde mora. Ele, que tem uma
bagagem leve na mochila e uma bagagem infinita nas memórias que carrega e que
deixa. Segue menino de asas nos pés. Nós
estamos sempre contigo na irmandade sagrada.
Voltei para casa a tempo de assistir o jogo do Santos,
meu filho torcedor como a Mãe aqui vibrava no estádio, na companhia do pai,
prima e seu marido. Eu, que sou tão Palmeirense como meus irmãos, agora também
sou torcedora do Santos pelo meu filho caçula. Sim, cabem em meu coração dois
times. Fiquei acordada esperando ele voltar e chorei um bocado lendo o post do
meu irmão Henrique. Dessas letras que retratam o laço de sangue e amor que
somos:
“Cresci sabendo que era a camisa querida do meu irmão, que ficava em seu
guarda-roupa. Acabou comigo, anos atrás, Toda vez que a vesti foi com um
sentimento que me carregou por vitórias e derrotas, e me fez seguir de cabeça
erguida. E guardei ela em meu guarda-roupa sabendo que seria até o momento em
que ...Hoje passei para o meu sobrinho, na presença do meu irmão, entre
sorrisos, risadas e alegrias familiares, Que a guardará e a vestirá, e será por
ela carregado por vitórias e derrotas, e seguirá de cabeça erguida. Meu nome
Henrique, meu irmão Paulo, meu sobrinho, seu filho, Paulo Henrique, e a
história de uma camisa que espero fortaleça uma união eternizada pelo mesmo
sangue verde”

O trio palmeirense. O velho, o caçula, o sobrinho
O Pai. O filho. A camisa entrelaçando gerações
o meu menino caçula Santista