Páginas

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Semanal de memórias

Nesses dias de temperaturas frias, as sopas e os caldos esquentam até a alma. A sopa marcou presença no cardápio da semana e levei um pouco para a vizinha. “Sua sopa é um abraço de Mãe, obrigada.” A frase de gratidão da Carol aflorou tantas lembranças de comidas que enlaçam encontros, em todas as estações.

Das sopas noturnas do sítio de vozinha, ao redor da mesa com os tios, tias e primos, dos caldos das padarias de São Paulo na companhia de amigos do trabalho, dos cafés matinais nas cafeterias, do café da tarde na casa de minha Mãe junto com os irmãos, do pastel da feira de domingo onde sempre encontro conhecidos do bairro.

Teve cuidado com as plantas, terra, novas mudas, novos vasos, plantar e replantar. Alecrim que perfuma o jardim e minha casa, que tempera os alimentos, que aromatiza minha água. O alecrim da casa da minha avó segue na minha também. Recebi cupuaçu que veio de Belém, que presente, que cheiro, que sabor.  Dessas conexões sensoriais que alimentam minha alma.

Eita que essa semana as memórias foram destaques. Estudei com Arthur relatos de memória para a prova de técnica de redação. Foi engraçado compartilhar com ele algumas das minhas memórias da infância. Tive a aula do curso com essa temática com a Renata, estou lendo o livro da bell hooks que resgata memórias de sua trajetória em uma abordagem inspiradora que contém 32 ensinamentos: ensinando pensamento crítico, sabedoria prática.

Partilhar memórias é enriquecedor. Aprendemos e ensinamos.  É um processo de cura, podemos até ressignificar passagens de nossa vida nesses momentos. Recebi fotos preciosas da época da escola no sertão, fotos dos meus netos, da praia, do quintal, do entardecer que amo ... saudades e memórias entrelaçadas nas imagens, diálogos e sabores ...

Para finalizar, uma das frases, dentre tantas, que grifei do livro da bell hooks: “Quando nos
reunimos para celebrar, algumas de nós – aquelas que estiveram envolvidas em centros para mulheres desde sua criação – sentimos que nossas celebrações alegres devem também deixar espaço para momentos de luto, para o ritual da memória.”

minha preciosa neta Peaches

meu abençoado neto Damian

Minha Isabelly, nosso elo sensível, em uma das praias das nossas memórias

domingo, 22 de maio de 2022

A camisa tesouro do trio

Manhã fria de sábado, eu estava no tanque esfregando as camisas do Santos do meu caçula. As duas camisas que ele mais gosta estavam encardidas e ela ia escolher a que usaria hoje no jogo. A água fria da torneira acionou lembranças, da minha mãe lavando as roupas da semana no tanque do quintal aos sábados a tarde, depois de chegar trabalho, da minha tia Coca que lavava as montanhas no domingo de sua folga. O cuidado das Marias com as roupas, a força delas na condução do lar, sim foram Elas, moram em meus sentidos. A imagem das duas nos tanques de outrora fez surgir lágrimas quentes em minha face, pensando em como elas rezavam pelos meninos na hora de lavar as camisas do time. Assim como fiz hoje, meu filho iria ao estádio mais tarde, sem a minha companhia dessa vez. Mãos geladas, corações quentes.

Eu não fui ao estádio por um motivo, o almoço churrasco na casa do meu irmão caçula. A despedida do meu irmão mais velho, que veio nos visitar nesse outono paulista. Cheguei primeiro para fazer a farofa, tradição já. Só que dessa vez sem alguns ingredientes já que nosso Henrique é vegano. No bairro de OZ, no quintal, com a churrasqueira de ferro, com companhias preciosas, minha irmã cuidadosa Lane, minha mãe, meus sobrinhos, a ex-chunhada e sempre amiga Amanda, mãe do Paulo Henrique, acompanhada de sua prole. Risadas, correria das crianças, o cheiro do churrasco aromatizando a rua, as conversas ao redor da mesa ...

De repente meu irmão Henrique chega com a camisa do Palmeiras que foi do Paulo, nosso irmão mais velho e a entrega para o Paulo Henrique, seu filho. Uma passagem que entrelaça histórias do passado, presente e futuro. A camisa de tantos jogos, em casa, nos estádios de São Paulo e de tantas cidades por onde meu irmão Paulo acompanhou o Verdão, que ficou com o Henrique por anos como pele nos dias de jogos, agora irá para outro guarda-roupa. Seguirá sua história sendo casa no corpo do nosso PH. Ela, um tesouro, tem um rasgo no peito, onde palpita o coração.

O entardecer mágico enfeitava o encontro que marcou mais uma partida do nosso Manchinha de Osasco. Ele segue para o sertão onde nascemos para visitar os nossos, de lá seguirá para praia onde mora. Ele, que tem uma bagagem leve na mochila e uma bagagem infinita nas memórias que carrega e que deixa. Segue menino de asas nos pés.  Nós estamos sempre contigo na irmandade sagrada.

Voltei para casa a tempo de assistir o jogo do Santos, meu filho torcedor como a Mãe aqui vibrava no estádio, na companhia do pai, prima e seu marido. Eu, que sou tão Palmeirense como meus irmãos, agora também sou torcedora do Santos pelo meu filho caçula. Sim, cabem em meu coração dois times. Fiquei acordada esperando ele voltar e chorei um bocado lendo o post do meu irmão Henrique. Dessas letras que retratam o laço de sangue e amor que somos:

“Cresci sabendo que era a camisa querida do meu irmão, que ficava em seu guarda-roupa. Acabou comigo, anos atrás, Toda vez que a vesti foi com um sentimento que me carregou por vitórias e derrotas, e me fez seguir de cabeça erguida. E guardei ela em meu guarda-roupa sabendo que seria até o momento em que ...Hoje passei para o meu sobrinho, na presença do meu irmão, entre sorrisos, risadas e alegrias familiares, Que a guardará e a vestirá, e será por ela carregado por vitórias e derrotas, e seguirá de cabeça erguida. Meu nome Henrique, meu irmão Paulo, meu sobrinho, seu filho, Paulo Henrique, e a história de uma camisa que espero fortaleça uma união eternizada pelo mesmo sangue verde”

O trio palmeirense. O velho, o caçula, o sobrinho

O Pai. O filho. A camisa entrelaçando gerações

o meu menino caçula Santista

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Memória da intuição

Ouvir a intuição quando ela palpitar e agir. Quando tocar seu coração vai lá e faz. Ouça sua intuição, pode ser a voz dos anjos sussurrando em seus sentidos. Essa semana eu tive a prova dessa verdade e do quanto os desafios que acontecem, por mais doloridos que sejam, servem para fortalecer nossa Fé e crer nos sinais de Deus.

Tive uma semana marcante. E nessa noite de domingo eu te agradeço Senhor por todas as providências que aconteceram revelando a grandeza do teu amor em nossas vidas. Gratidão pelas etapas que já conseguimos. Foi uma grande bênção. E peço ao Espirito Santo que nos conceda o ânimo para os próximos passos.

Eu que nunca pensei passar por momentos assim, consegui me manter firme diante de uma situação tão dolorosa. Estive serena como nunca imaginei. Lembrei muito da sensibilidade e coragem do meu vozinho essa semana e senti sua presença em meus passos, desde a hora que contemplei a estrela brilhante na madrugada da terça-feira 15/02 ..

E quero aqui registrar nesse meu Blog de Memórias, que os acontecimentos dessa semana seguirão ecoando em minha estrada. Graciosas janelas de cura da Santa Casa, o jardim, as Nossas Senhoras, ao riso e afeto que senti, aos anjos que vestem brancos e para todos que são revestidos de amor, minha imensa gratidão!

Intuição que salva. Janelas que curam.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

A memória da estrela cadente de 2021

Uma página em branco? É assim que muitos olham o novo ano? É uma forma inspiradora de ver. Imaginar que podemos começar da primeira letra a escrever uma nova história. Talvez seja possível recomeçar mesmo com a bagagem extensa do ano que se vai e dos outros registrados na memória. Tenho refletido muito sobre o filtro que fazemos dos acontecimentos. Quantos deles seguem marcando meus passos, até nas dores que sinto? Tem também as recordações afetivas que seguem aflorando meu sorriso e me afagam em momentos tristes. Elas são vitais no meu cotidiano. Tem minutos que fecho os olhos para reviver e me sinto abraçada pelas ondas, sensação salgada que escorrem em lágrimas.

Hoje acordei pensando nos meses de 2021, buscando relembrar fatos marcantes desse ano, alguns esquecemos, ficam arquivados e são ativados por conexões, dessas maravilhas dos links neurais. Outros ficam impregnados na alma e seguem ecoando. Então resolvi escrever no meu caderno de gratidão para depois definir qual registrar no blog. Nesse tempo de pandemia, em que as relações presenciais foram raras, a saudade latejou muito. A ausência ensina e me fez selecionar mais ainda o que importa e fortalecer os laços com quem é de casa, num sentido amplo do que essa relação lar representa.

O ano está perto de encerrar, o tempo voa, ouço com frequência. E a idade avança, eu sinto nos fios brancos que pipocam e nas juntas do corpo que dói. Reconhecer a fragilidade e ao mesmo tempo a minha força, me faz entender que preciso priorizar todos os dias a decisão do cuidado comigo. Quanto dos meus desejos foram ficando para trás, ano após ano? É a pergunta que não cala e que me coloca diante de um novo roteiro. Um silêncio repleto de vozes, convocando-me a repensar o enredo desenhado até aqui, para escolher um novo capítulo. Que turbilhão!

E no meio dessa tormenta de reflexões, uma imagem do dia 25/12/21 está iluminando minha visão. Há anos eu não via uma estrela cadente e nessa noite eu a contemplei reluzindo no céu, ligeira e intensa, se esvaindo no espaço celeste e tocando meus sentidos. Não fiz nenhum pedido, apenas fui arrebatada pelo presente, cujo significado está palpitando. Então que venha 2022 e que eu tenha coragem de fazer brilhar o que está fluindo em meu coração.

Crédito da imagem neste link

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Aos meus avós estrelas

Recentemente fui ao velório e enterro e fiquei refletindo sobre esses doloridos momentos de despedida. Nos abraços, no pranto, nas orações, no olhar perdido que anuncia tantos pensamentos do que passou e do que deixamos passar. Não estive ao enterro de nenhum dos avós. A distância no luto. Os que morrem são chamados de finados e eu insisto que continuam vivos naquilo que palpita em nós. A frase de Guimarães Rosa é um bálsamo nessas horas: “as pessoas não morrem, ficam encantadas.” Esse encantamento digo que é o modo que elas seguem vivendo em nós.

Meu vozinho Enoque segue nos meus passos, uns dizem que enxergam sua simplicidade em meus gestos, outros no meu olhar, na maneira como contemplo o horizonte, seja da janela, do mar ou mirando o céu. Nos meus traços tenho minha avó-madrinha. Já ouvi tantas vezes: “nossa como você parece Dona Cotinha.” E que honra essa semelhança que vai além da aparência física. Ah e do meu avô-padrinho Chico Cordeiro tenho o riso solto. Eita como recordo de suas risadas que seguem ecoando em minhas gargalhadas.

No céu da madrugada encontro suas estrelas. Cada um está num canto da constelação e eu os reverencio com uma oração. Até vejo elas piscarem em resposta. Sim, sou dada a essas loucuras de conversar com o celeste.


que toquem os sinos pela memória dos meus avós! Gratidão eterna!

sábado, 28 de agosto de 2021

Carta para Maria avó

Minha estimada vozinha, saudades de sua presença firme. Sim, mesmo diante da fragilidade do seu corpo pela idade avançada, reside na Senhora uma Fortaleza que me inspira. Já disse várias vezes e nunca me cansarei de dizer o quanto me sinto honrada em ser sua neta, em fazer parte de tua linhagem e carregar em meu DNA e sentidos a grandeza do seu sangue e amor. Fecho meus olhos e lembro da minha vozinha em sua casa, assistindo suas orações, sentada no canto da janela da cozinha, no alpendre, no terreiro e deitada em sua cama. O seu apreço pelo seu canto é marcante.

Eu que sempre gostei tanto de rua, até nas minhas andanças hoje vejo que carregamos conosco a nossa casa na casa que somos. E isso aprendi com o tempo e espero que ter uns anos para seguir desenhando a casa que sou. Uma certeza que tenho é que nessa morada há muito das minhas avós. É uma maneira viva de carregar o sertão comigo onde quer que eu vá, na presença das rezas, nas lembranças dos cantos das novenas, nas paisagens que circundam meus sonhos e em todas essas memórias dos afetos dos meus que seguem palpitando em meus poros.

Ser forte é também ter a coragem de reconhecer nossas fraquezas e as vezes eu esmoreço sim vozinha. Nessas horas de agonia, eu me apego na contemplação do entardecer ou no canto da alvorada, eu rezo o Santo anjo e a Ave Maria, revivo os mergulhos no açude contemplando os raios do Sol, sento a beira da água para ouvir de novo as marés encantadas, ouço os vagalumes brincando com as estrelas do céu e sinto o crepitar das fogueiras. E sinto que há uma mágica dos sentidos que floresce meu ânimo.

Eu te vejo vozinha como o anjo protetor de nossa família. Sei que já sofreu muito e conseguiu continuar na peleja. Não há família perfeita e temos nossos desafios que dói. Temos nossas passagens doloridas e vamos colecionando essas cicatrizes, que também chamo de cruzes, como essas que são fixadas nas estradas do sertão marcando a morte de alguém. Penso que morremos e renascemos várias vezes nesse percurso. E lembro do mandacaru e xique xique que renascem com as chuvas e tantas outras vegetações desse sertão que nos brinda com esse milagre das águas. É quando sinto emergir essa força que parece surgir das entranhas. Só quem nasce nessas terras conhece essa energia.

Vozinho me dizia da sua braveza e eu lembro de suas brigas e da forma como o amor estava na entonação brava de sua fala. Eu tento ensinar isso quando brigo com o Arthur, o caçula danado. Quem ama corrige. E sei que todas suas brigas foi e continua sendo pensando no bem de todos nós. Não sei se Peaches e Damian, meus netos e seus tataranetos terão a honra de conhecê-la, espero que sim. Assim como anseio contar a eles a sorte de ter uma Tataravó Maria tão preciosa. Nesse tempo que habitamos é um tesouro ter uma família que é retrato de acolhimento e ter uma avó que é referência de Amor. Sempre me senti acolhida em tua casa coração. É na minha casa coração que minha vozinha fará morada eterna.

Da Maria Ivone, a neta.
Cotia – SP, 28 de agosto de 2021
Escrevi do meu quarto, sentindo o cheiro e o canto da chuva, é manhã de inverno. Sábado. Lua Minguante.

Vozinha no alpendre de sua casa no sítio, em noite de Lua Cheia

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O riso e o choro na corrida

03/05/2021, cheguei ao dentista às 15:40 da segunda-feira de outono. A primeira consulta da Isa, depois a minha. Às 16:40 Isa foi ao encontro do pai. Eu fiquei. Depois de 1:35 minutos com a boca escancarada o procedimento foi concluído (mesmo com a anestesia você sente incômodo, quem já fez canal sabe bem do que estou falando). E ainda terei outras etapas. Depois de agendar a próxima consulta e da despedida chamei o Uber que naquela hora ficou um preço mais salgado que o normal, mas eu precisava de casa, estava perto da hora dos remédios e o banho, a cama e o sono estavam no meu horizonte de sonhos naquele instante. Depois de longos 10 minutos o carro chegou.

O motorista atencioso nas confirmações do nome e destino e logo ingressou na conversa. Perguntou como eu estava, expliquei sobre o canal e o outro dente que latejava e disse que dor de dente é daquelas que nos faz endoidar e etcs. Ele sorriu do meu jeito de falar e ao mesmo tempo sua voz embargou ao responder:  ”obrigado por me fazer rir. Eu acabei de chorar muito.” Eu senti aquele nó na garganta ao ouvir o relato da cena e sua ação, que vou tentar resumir a seguir:

Ele é funcionário público e complementa sua renda fazendo Uber para junto com sua esposa conseguir pagar as contas, principalmente, o investimento na educação dos três filhos. Depois de encerrar seu expediente de trabalho e as vezes antes de iniciar ele faz o aplicativo.  Ao terminar uma de suas corridas depois do expediente, ele viu um pai recolhendo do lixo alimento para dar a sua família, mulher e dois filhos que estavam na lona improvisada embaixo do viaduto. Ele parou o carro, ficou observando a cena e viu o pai dando um pacote com resto de batata do MC para uma das crianças. Ele saiu do veículo foi até o local e conversou com eles, foi comprar alimentos com o dinheiro que tinha das corridas que fez nas últimas horas e, conforme ele disse: “não tem como descrever o olhar de gratidão daquela família, como não tem como não ficar arrasado em saber que tantas outras estão na mesma situação.” Ele disse que tinha entrado no veículo e voltou a dirigir aos prantos e quando conseguiu se acalmar aceitou a minha corrida.

Lágrimas quentes escorreram salgadas e nosso choro foi seguido de um silêncio comunhão. Voltamos a conversar já pelo meio da corrida e gargalhamos mais umas vezes ao falar das nossas próprias mazelas. Ao chegar ao meu destino, ele me parabenizou pelo humor e disse: “desculpe, você deve tá com uma dor danada e eu fazendo você chorar.” Eu respondi: Imagina, eu te agradeço tanto por essa partilha. Muito obrigada e lembre-se que o riso é um ato de resistência. E também um bálsamo para nossas dores.

A anestesia estava passando, a dor aumentando, tinha estrelas no céu e uma lua minguante enigmática. Senti um abraço do céu anestesiando minha alma com ternura.


Eu escolhi a foto do meu irmão Paulo para ilustrar essa postagem, porque ele é um desses personagens do riso da minha vida e que também tem um coração gigante. Esse texto está no meu Blog de memórias porque essa corrida ficou gravada no meu livro-coração.

Casa coração

Os trilhos da estação de Osasco, o trem até Barra Funda. Café na rua, as consultas com o cardiologista, da mãe e filha. Depois do médico atr...