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domingo, 28 de junho de 2026

Casa coração

Os trilhos da estação de Osasco, o trem até Barra Funda. Café na rua, as consultas com o cardiologista, da mãe e filha. Depois do médico atravessamos na faixa com destino ao Parque da Água Branca, um refúgio no cenário do bairro. O casarão abraçado pelo verde atrai o olhar dos visitantes logo na entrada. Quantas pessoas moraram ali? Quantas histórias foram testemunhadas nesta casa? Seguimos pelas alamedas sombreadas, muitas pessoas fazendo piquenique, no banco a esquerda, uma senhora faz exercícios de alongamento com o auxílio do moço, será seu filho? Um sobrinho ou cuidador? ...Garotos jogam futebol no campo de areia e eu falo pra Isa que se seu irmão tivesse conosco ele iria jogar também. Nos estábulos vazios um cavalo preto solitário recebe cuidados e uma criança observava encantada. Cena que também me fez lembrar do caçula que não aprecia esses passeios da mamãe.

Nossos passos seguiram e chegamos a entrada da Casa Cor, um evento de arquitetura que anualmente acontece. Há espaços para visitação livre e para conferir toda o vento compramos os ingressos. Há muitos anos eu desejava visitar o evento. Entusiasmada e com a companhia adorável e olhar sensível da minha filha iniciamos pelos jardins. A rede convidando ao descanso, as poltronas, os cantos charmosos, os espelhos adornados com as folhagens. Um ensaio criativo do que estava por vir quando ingressamos. 

Logo na entrada um quarto que lembrou a Isa um livro que ela aprecia. O baú que me lembrou minha Vozinha, elementos em comunhão expressando memórias e afetos. Ambientes muitos distintos em todo trajeto. As janelas generosas do casarão evidenciavam ainda mais a decoração de cada lugar. Diferenças, semelhanças, cores, texturas, objetos que marcam, quartos, salas, cozinhas, escritórios, banheiros que relaxam só de ver, poltronas que te convidam a sentar confortavelmente para uma leitura...lustres, quadros, arranjos, peças que transmitem linguagens criativas, que evocam raízes, escolhas e conexões que retratam a essência de quem projetou.

A cada corredor uma surpresa. Observo os olhares que percorrem com a leitura única de cada pessoa, assim como a minha. Reflito sobre o que mais me impressionou e vejo que foram composições alinhadas com minhas lembranças e afinidades, como os quadros com fotos, folhas, cartas, rabiscos ou poemas, o sofá integrado na janela, as plantas enfeitando ainda mais a decoração. E penso que aquilo com o qual nos identificamos é um sinal do que habita nossa casa coração.

Qual meu ambiente favorito de todos que vi? Diante de tanta beleza e criatividade, é difícil escolher um. A melhor recordação desse dia foi a apresentação do anfitrião de uma sala perfumada por maças, que elevou nossa vibração com a arte de sua intervenção poética. Que forma sensacional de descrever a criação com a proposta do tema do ano da Casa Cor. Sentir faz toda diferença e levarei comigo sua sensibilidade e abraço.

Ao tomar a água de coco na saída, na mesa com o frescor da sombra, eu sorri feliz por ter pela primeira vez visitado a Casa Cor. Sensação de fazer algo por você. Um presente...Próximo a saída do parque, novamente passando pela área do piquenique, ouvi a moda de viola tocada e cantada. Que bonito ver pessoas reunidas celebrando a vida numa tarde de domingo.

E seguimos nós, metrô em direção a estação Anhangabaú e a Biblioteca Mário de Andrade. Degraus da escada até o terraço para apreciar a vista. Sentamo-nos nas poltronas e mergulhamos na leitura dos livros. Sim em nossas bolsas sempre haverá essa companhia que faz diferença. Parágrafos, páginas, letras compartilhadas.

Retornamos, exaustas, com as guias dos exames a serem marcados, para ver como andam nossos corações. Sei que eles seguem pulsando pelas descobertas que ainda faremos pelas vias da cidade e que se tornarão memórias afetivas.


Um registro de memória do domingo de inverno

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